A OUTRA HISTÓRIA (aquela que não colocamos no currículo)

 

Nasci no Rio de Janeiro em 1969. Minha mãe, Dona Zélia, de pele clara, descendente de brancos com índios da região de Jaguaquara-BA, fugiu da seca e pobreza da região, para seguir as ‘dicas’ de uma vida melhor no sudeste. Meu pai, Seu Antonio, preto, descendente de pretos da região de Santo Antônio do Coité-BA, apenas foi atrás de minha mãe. Uma história não diferente de muitas outras. Ambos no Rio de Janeiro que nas décadas de 60-70 juntavam-se aos outros tantos: pobres, pretos-pardos, nordestinos. Minha mãe costureira, meu pai porteiro. Muito mudou de lá para cá. Em 1980 fomos morar em Salvador-BA, onde permaneci até 2014.

Em Salvador-BA ser nordestino e/ou preto-pardo era completamente irrelevante sob minha perspectiva de criança na década de 1980, ainda que estivesse claro que a diferença era ser branco e não nordestino (que parecia ser meu caso, por ter nascido no Rio de Janeiro de pele clara). Assim, em minha juventude repeti inúmeras vezes que quaisquer que fossem as diferenças observáveis eram consequência da imensa desigualdade de classe claramente verificada. Dessa maneira, desde cedo palavras como opressão e desigualdade de classe chegavam a mim de maneira daltônica, e não seria diferente na medida que ouvia insistentemente a alegria de viver em uma suposta ‘democracia racial’.

Minha jornada na educação superior/tecnológica começou com a formação tecnológica de três anos e meio no curso de Processos Petroquímicos que finalizei em 1992. Como em uma nova paidéia meus pais informavam que seria melhor eu fazer um curso tecnológico (o techné), que tentar artes (o arethé), como eu queria. A ‘Escola Técnica’ estava em outra cidade, e todos os dias passava uma hora no ônibus, tanto na ida quanto na volta. O que me possibilitou ler… ler muito.

A formação em tecnólogo em Processos Petroquímicos me habilitou já 1991 a entrar na Dow Química do Brasil. Neste sentido meus pais tinham toda razão, pois rapidamente comecei a trabalhar. Trabalhei de regime de turno até 2000, o que significou ter bastante tempo livre nas folgas o que justificou a quantidade de ‘momentos’ vividos nesta década de 1990. Nos 21 anos que estive na indústria segui obedientemente a égide meritocrática desenvolvendo-me funcionalmente e nos últimos 12 anos (até 2012) desempenhei papeis de liderança como Coach (desenvolvimento de pessoas) e Líder de Segurança, Saúde e Meio Ambiente. Portanto, obtive larga experiência com gestão de pessoas, implementação e gerenciamento de processos. Contudo, eu lia muito e somado a algumas experiências observadas durante as pesquisas no mestrado e doutorado, percebi que não podia mais insistir para mim mesmo que não me preocupava com o significado de ter um excelente salário enquanto discordava moralmente da origem deste salário, enfim, indústria petroquímica e seu modelo administrativo e econômico resumia um conjunto de elementos que tanto combatia. Então em 2012 fui demitido da indústria química para ser apenas professor.

Em 1993 iniciei o curso de Musicoterapia na Universidade Católica. Fiz estágios nas Obras Assistenciais de Irmã Dulce e no Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira. Nesses estágios fui responsável por crianças autistas, paralisados cerebrais, portadores de síndrome de down e adultos com esquizofrenia. Neste mesmo ano formei um evento que acontecia aos sábados quinzenalmente (chamado Fenomenologia do Som) juntamente com o professor e filósofo Dante Galeffi, que ainda hoje acontece em Salvador-BA, em que músicos e outros artistas se reuniam para, dentre outras coisas, tocar músicas de maneira experimental e despretensiosa. Através do professor Dante Galeffi comecei uma viagem, sem volta, à filosofia contemporânea e fui fisgado por Sartre e Beauvoir (evidentemente que não antes de passear por Hegel, Husserl, Heidegger) e mais tarde por Marx/Engels e Bakunin.

Em 1998 finalizei a graduação e neste mesmo ano fiz um curso de formação de um mês em Ciência Cognitiva na UCLA em Los Angeles-EUA. Em Los Angeles conheci o antropólogo e escritor (e amplamente conhecido nas décadas de 70-80 como guru da nova era) Carlos Castaneda, que deste encontro derivou minha ida ao Peru onde tive experiências alucinógenas com o cacto chamado San Pedro (ou huachuma), e passei a me interessar pelas práticas sagradas indígenas. Durante dois anos me inseri na comunidade dos Kariris Xocós que viviam no subúrbio na Grande Salvador e estudei os torés (músicas sagradas) dessa comunidade. Toquei em uma banda de samba do bairro da Liberdade (bairro com uma forte identidade negra em Salvador-BA), quando pude conhecer Vovô do Ilê Ayê, bem como fiz trilhas sonoras para shows de dança afro da Faculdade de Dança da UFBA, e participei de um estudo sobre música de trabalho do sertão baiano e da Festa da Boa Morte de Cachoeira-BA (http://www.ipac.ba.gov.br/festa-da-boa-morte).

Acredito que a década de 1990 foi para mim uma década de descobertas. Antes eu apenas queria seguir o caminho social que estava na minha frente, contudo, de alguma forma conhecimentos outros foram chegando. Quanto a isso, penso que tive muita sorte no meu caminho. Acho que não apenas encontrei bons livros, mas, pessoas importantes, que no momento preciso me empurraram para algum abismo, uma delas foi Noemi Salgado Soares, que conheci enquanto fazia o curso de Processos Petroquímicos e através dela, fui apresentado à Transdisciplinaridade e no autor Krishnamurti.

Em 2003 terminei a pós graduação latu senso em Psicologia Organizacional e do Trabalho e em 2007 terminei o Mestrado Profissional em Administração da UFBA (Universidade Federal da Bahia). Nesta época conheci através do professor Carlos Sanchez Milani o Fórum Social Mundial, e movimentos sociais campesinos como o MST e o Exército Zapatista de Libertação Nacional, e, obviamente, passei a ler os trabalhos de Milton Santos.

Ainda em 2007 fui convidado para lecionar disciplinas do curso de Administração na Unime-Facdelta (Salvador-BA), e ministrei um curso de Gestão e Procedimentos Administrativos, para a ONG CIPÓ. A dissertação defendida em 2007 ganhou o prêmio de melhor pesquisa em Pós-Graduação do VIII Seminário de Pesquisa e Pós-Graduação da UFBA. Este mesmo trabalho também foi apresentado no III Congresso Brasileiro de Psicologia Organizacional e do Trabalho de 2008.

Ingressei em 2009 no Doutorado em Educação no Programa de Pós Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (FACED – UFBA) sob a orientação do Prof. Dr. Robinson Moreira Tenório, na linha de pesquisa de Políticas e Gestão da Educação da área de concentração Educação, Sociedade e Práxis Pedagógica. Posso elencar alguns pontos altos de minha jornada acadêmica mais profunda:

  1. Coordenei o Grupo de Avaliação da linha de pesquisa de Políticas e Gestão da Educação da área de concentração Educação, Sociedade e Práxis Pedagógica, onde pude influenciar com algumas práticas organizacionais e assim, fizemos o primeiro Planejamento Estratégico deste grupo de pesquisa, e reestruturamos a organização de trabalhos para o que intitulei de modelo guarda-chuva, ou seja, o pivô era a avaliação em educação e desta surgiram grupos de trabalho na educação básica, ensino superior, e outros. O grupo do ensino superior derivou para estudos das ações afirmativas no ensino superior;
  2. Também fui responsável pela organização do livro ‘Avaliação e Sociedade: a negociação como caminho’. Este foi o primeiro livro de três (Avaliação e Decisão e Avaliação e Gestão, foram os outros dois);
  3. Traduzi do inglês o livro Fourth Generation Evaluation de Guba e Lincoln (deste derivou capítulos em livros e mais recentemente um artigo, no prelo da revista da PUC-Minas). Desta tradução me aproximei e aprofundei do Círculo Hermenêutico Dialético, de derivou a aprofundar em Gadamer e conhecer Habermas, que indubitavelmente, me aproximou da Teoria Crítica, que mais tarde chegaria à Teoria Racial Crítica;
  4. Sou parecerista da editora universitária EDUFBA, e Revisor de periódico de duas revistas eletrônicas (da PUC Minas o ‘Cadernos de Geografia’ e da POIÉSIS – Revista do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unisul);
  5. Minha experiência como professor universitário de graduação em Salvador-BA: Facdelta e Unime (2008-2013) e Ruy Barbosa (2012-2013) e pós graduação na UNIFACS (2009-2013). Em Cascavel-PR: Univel. Em diversas disciplinas em Administração, Pedagogia e Artes, bem como produção de material instrucional em EAD para os MBAs na disciplina de Responsabilidade Social e Sustentabilidade;
  6. Durante o mestrado e doutorado tive a oportunidade de orientar estudantes da pós graduação lato sensu em Engenharia de Segurança Industrial (Anne Grazielle, Ednilton da Silva Santos, Lúcio Gurgel, Alberto Sobral) no CEEST-UFBA, bem como participar de bancas de conclusão de curso de graduação e mestrado;
  7. Coordenei a conferência do RIAIPE em Salvador-BA. A expectativa era coordenar o projeto na Bahia por um ano, contudo, tive que sair de Salvador para fazer o pós-doutorado em Belo Horizonte-MG;
  8. Fiz parte de diversas comissões organizadoras e científicas;
  9. Ajudei na organização e participei do IV Internacional Conference on Education, labor and emancipation, em 2009 que aconteceu em Salvador-BA;
  10. Participei de diversos simpósios e congressos nacionais nas áreas de educação e psicologia organizacional, bem como: a) o V Congresso Internacional em Avaliação Educacional, em 2010; b) XXIV Simpósio Brasileiro e III Congresso Interamericano de Política e Administração da Educação, em 2009; c) IV Congresso Ibero-Americano de Política e Administração da Educação e VII Congresso Luso Brasileiro de Política e Administração da Educação;
  11. Desde 2013 sou orientador de Marcelo Caetano no mestrado de avaliação da Universidade Nacional do Timor Leste (o mestrado foi suspenso por um ano retornando neste ano de 2016);
  12. No pós-doutorado apresentei os resultados de minha pesquisa em seminário sob o título de: A Desigualdade Aceita e a Questão Racial: reflexões sobre resultados desiguais no Enem 2012 em Belo Horizonte;
  13. Enquanto dedicado a estudar a questão da equidade (raça, gênero e nível socioeconômico) durante o doutorado, escrevi capítulos de livros e artigos sobre o tema, por exemplo: a) Investigação sobre equidade educacional perante a questão da raça em Salvador, na revista POIÉSIS – Revista do Programa de Pós-Graduação em Educação (Unisul); b) Investigação sobre o impacto dos determinantes individuais nos resultados de testes cognitivos em matemática no livro: Educação e Gestão Lusófonas: Diferentes olhares, diferentes caminhos. ed.Feira de Santana : UEFS Editora; c) Implantação de Sistema e Software de Avaliação para a Gestão da Educação Municipal de Teodoro Sampaio no V Congresso Internacional em Avaliação Educacional, e V Congresso Internacional em Avaliação Educacional. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2010;
  14. O doutorado me provocou a necessidade de aprender uma abordagem quantitativa específica de estatística chamada Modelos Hierárquicos Lineares, ou Modelo Multinível, que atualmente acredito ser uma das melhores abordagens para investigar a desigualdade em grupos através de uma abordagem quantitativa. Também me aproximei bastante do pensamento de Amartya Sen, em que os conceitos de capacidade, funcionamento, liberdade e oportunidade foram centrais na tese;
  15. Esta abordagem quantitativa foi bastante usada dentro de uma consultoria que prestei à Universidade de Fortaleza – UNIFOR, através da empresa que tive de desenvolvimento de pessoas e desenvolvimento de estratégias universitárias e implementação de sistemas de avaliação (Dasein Desenvolvimento Humano), quando implementamos a Avaliação de Progresso;
  16. Após o pós-doutorado voltei a me dedicar a estudar de maneira autodidata a questão da desigualdade de raça e gênero, a exemplo de autores como: Butler, Asante (afrocentridade), Derrick Bel e Gloria LadsonBillings (Teoria Racial Crítica), a História da África (desenvolvido pela Unesco), Fanon, Garvey, dentre outros.

 

Desde o doutorado até o presente minhas publicações e linhas de estudo versam prioritariamente pelos temas: desigualdade de raça, gênero e nível socioeconômico, equidade na educação, uso de bases de dados do Enem e avaliações longitudinais, uso de abordagens qualitativas como o Círculo Hermenêutico Dialético, bem como com uso de abordagens quantitativas através dos Modelos Hierárquicos Lineares, ações afirmativas nas universidades federais. Durante o pós-doutorado, com a pesquisa intitulada: ‘A Desigualdade Aceita e a Questão Racial: reflexões sobre resultados desiguais no Enem 2012 em Belo Horizonte’, com uso dos metadados do Enem 2012, usando abordagem quantitativa dos Modelos Hierárquicos Lineares (tanto no doutorado como no pós-doutorado), investiguei novamente desigualdade de raça, gênero e nível socioeconômico e equidade na educação e discorri sobre algumas questões que percebi serem necessárias, por exemplo, a meritocracia é uma desigualdade aceita que não é superada com os esforços de políticas de ações afirmativas o que pode vir a produzir uma atenuação, um arrefecimento, na real luta contra as desigualdades historicamente instaladas e mantidas.

2016 fui morar em Cascavel-PR e tive oportunidade de me aproximar da comunidade de haitianos de lá e alguns projetos de inserção social conduzido por paróquias da cidade, também me engajei em coletivos feministas, LGBT e de movimento negro.